domingo, 2 de novembro de 2014

OS EVANGÉLICOS: EM CASA, NA COMUNIDADE FÉ E NA VIDA PÚBLICA


Quem são e o que pensam os chamados evangélicos, estes fiéis que no Brasil se multiplicam a cada dia e que, em sua maioria, saem das fileiras do catolicismo e geralmente mediante um fenômeno de conversão?
O Rio de Janeiro é ainda hoje o estado mais católico do país. Uma pesquisa anterior projetada e coordenada por Rubem Cesar Fernandes, realizada em 1992 pelo ISER (Instituto de Estudos da Religião) na área metropolitana do Rio de Janeiro, constatou a existência de 4000 instituições evangélicas nesta área. Com o objetivo de avaliar o ritmo deste crescimento, recorreu-se a registros publicados em diário oficial nos três anos anteriores. Os resultados destes levantamentos foram surpreendentes: mais de cinco novas igrejas foram fundadas e registradas por semana naqueles anos. Ou seja, mais do que uma igreja por dia útil. E, entre as 710 igrejas fundadas, durante os mesmos três anos, no Rio de Janeiro e sua periferia, nada menos do que 91,26% são pentecostais e 80% delas se localizam nas áreas mais carentes.
Em outras palavras, na região metropolitana do Rio de Janeiro, quanto mais pobre é a área, menos católica ela costuma ser e mais pentecostal ela se torna. E há ainda outro resultado da mesma pesquisa que chama atenção: entre as 52 denominações evangélicas cadastradas, nada menos do que 30 foram criadas no Rio de Janeiro.
Porque o interesse pelos evangélicos?
Há 20 anos o objeto desta pesquisa seria assunto para uns poucos especialistas. Tipicamente o tema era visitado por cientistas sociais de extração evangélica que traziam para o ambiente universitário suas experiências e preocupações de origem. Hoje, evidentemente, tornou-se matéria de interesse geral. Esta mudança pode ser atribuída a, ao menos cinco fatores:
  • O crescimento notável da população evangélica na América Latina. Considerando-se o crescimento quantitativo tornou-se uma inequívoca medida de sucesso nos tempos modernos, é natural que os evangélicos sejam hoje percebidos como um intrigante fenômeno de sucesso cultural;
  • Sua visibilidade. Os evangélicos não se escondem. Preferem situar os templos em locais de destaque, falam de Cristo com desenvoltura a próximos e a estranhos, evangelizam nas ruas e investem poderosamente na mídia. A visibilidade, para eles, tem um sentido religioso, como expressão do testemunho de Boas Novas recebidas.
  • Seu impacto transformador no campo religioso. Levam mensagem de conversão que implica rupturas marcantes no conteúdo da fé e no comportamento. “É preciso nascer de novo”, dizem em suas pregações. As mudanças são tão evidentes que provocam polêmicas e, em certos casos, até mesmo escândalo.
  • Sua presença na vida pública, para além da religião. Ultrapassaram a fase do reconhecimento em grupos fechados e apresentaram-se cada vez mais como portadores de uma alternativa de fé para o país. Repercutem nos hábitos culturais e na politica.
  • Sua penetração nas classes pobres e nos bairros perigosos. São mais bem-sucedidos justamente nas regiões da sociedade que parecem quase inacessíveis às elites seculares formadoras e opinião.
A palavra “ética” vem do grego ethos e se refere aos costumes ou práticas que são aprovados por uma cultura. A ética é a ciência da moral ou dos valores e tem a ver com as normas sob as quais o indivíduo e a sociedade vive. Essas normas podem variar grandemente de uma cultura para outra e dependem da fonte de autoridade que lhes serve de fundamento.

A ética cristã tem elementos distintivos em relação a outros sistemas.
O teólogo Emil Brunner declarou que a ética cristã é a ciência da conduta humana que se determina pela conduta divina. Os fundamentos da ética cristã encontram-se nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, entendidas como a revelação especial de Deus aos seres humanos.
A ética é importante para a vida diária do cristão. A cada momento precisamos tomar decisões que afetam a outros e a nós mesmos. A ética cristã ajuda as pessoas a encarar seus valores e deveres de uma perspectiva correta, a perspectiva de Deus. Ela mostra ao ser humano o quanto está distante dos alvos de Deus para a sua vida, mas o ajuda a progredir em direção esse ideal.


Se fosse possível declarar em uma só sentença a totalidade do dever social e moral do ser humano, poderíamos fazê-lo com as palavras de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Mt. 22, 37 e 39)

1. A ÉTICA DO ANTIGO TESTAMENTO

1.1  O caráter ético de Deus
A religião dos judeus tem sido descrita como “monoteísmo ético”. O Velho Testamento fala da existência de um único DEUS, o criador e Senhor de todas as coisas.
Esse Deus é pessoal e tem um caráter positivo, não negativo ou neutro. Esse caráter se revela em seus atributos morais. Deus é Santo (Lv. 11, 45; Sl. 99, 9), justo (Sl. 11, 7; 145, 17), verdadeiro (Sl. 119, 160; Is. 45, 19), misericordioso (Sl. 103, 8; Is. 55, 7), fiel (Dt. 7, 9; Sl. 33, 4).

1.2  A natureza moral do homem
A Escritura afirma que Deus criou o ser humano à sua semelhança (Gn 1, 26-27). Isso significa que o homem partilha, ainda que de modo limitado, do caráter moral de seu Criador. Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina no ser humano, não a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das suas criaturas: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).

1.3  A Lei de Deus
A lei expressa o desejo que Deus tem de que as suas criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis no Antigo Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam disciplinar o relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca valores como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade, sempre visando o bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.

1.4 Os Dez MandamentosA grande síntese da moralidade bíblica está expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21). As chamadas “duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e para com o seu próximo. O Reformador João Calvino falava nos três usos da Lei: judicial, civil e santificador. Todas as confissões de fé reformadas dão grande destaque à exposição dos Dez Mandamentos.
1.5 A contribuição dos profetas
Alguns dos preceitos éticos mais nobres do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos Profetas, especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na ética individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus e oferecer-lhe sacrifícios, sem, todavia ter um relacionamento de integridade com o semelhante. Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20; 10 1-2; 33, 15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6, 6-8.

2. A ÉTICA DO NOVO TESTAMENTO

1. A ética do Novo Testamento não contrasta com a do Antigo, mas nele se fundamenta. Jesus e os Apóstolos desenvolvem e aprofundam princípios e temas que já estavam presentes nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases novas.

2. A ética de Jesus: a ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o conceito do “reino de Deus”.
Esse reino expressa uma nova realidade em que a vontade de Deus é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não apenas ensinou os valores do reino, mas os exemplificou com a vida e o seu exemplo.

3. O Sermão da Montanha: uma das melhores sínteses da ética de Jesus está contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus discípulos (os Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade, mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor. A moralidade deve ser tanto externa como interna (sentimentos, intenções): Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc 7, 21-23.

4. A vontade de Deus: Jesus acentua que a vontade ou o propósito de Deus é o valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O maior pecado do ser humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12, 13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos dois grandes mandamentos que sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro princípio importante é a famosa “regra de ouro”: Mt 7, 12.

5. A ética de Paulo: Paulo baseia toda a sua ética na realidade da redenção em Cristo. Sua expressão característica é “em Cristo” (II Co 5, 17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). Somente por estar em Cristo e viver em Cristo, profundamente unido a Ele pela fé, o cristão pode agora viver uma nova vida, dinamizado pelo Espírito de Cristo. Todavia, o cristão não alcançou ainda a plenitude, que virá com a consumação de todas as coisas. Ele vive entre dois tempos: o “já” e o “ainda não”.

6. Tipicamente em suas cartas, depois de expor a obra redentora de Deus por meio de Cristo, Paulo apresenta uma série de implicações dessa redenção para a vida diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef 4, 1)

7. Entre os motivos que devem impulsionar as pessoas em sua conduta está a imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; Fp 2, 5). Outro motivo fundamental é o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-13; 16, 14; Gl 5, 6). O viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-23).

8. Na sua argumentação ética, Paulo dá ênfase ao bem-estar da comunidade, o corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4, 25; Gl 3, 28). Ao mesmo tempo, ele valoriza o indivíduo, o irmão por quem Cristo morreu (Rm 14, 15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16)

9. Acima de tudo, o crente deve viver para Deus, de modo digno dele, para o seu inteiro agrado: Rm 14, 8; II Co 5, 15; Fp 1, 27; Cl 1, 10; I Ts 2, 12; Tt 2, 12.








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