domingo, 7 de dezembro de 2014

Dinheiro. Onde está o seu tesouro.


Ao pensar no tema a primeira coisa que me passou pela cabeça foi o filho pródigo. Que passava na cabeça desse jovem? O que o fez tomar a decisão de pedir sua parte em algo que nem existia? De fato herança só existe depois da morte de alguém, de certa forma ele já havia matado o pai.

Jesus continuou: "Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao seu pai: ‘Pai, quero a minha parte da herança’. Assim, ele repartiu sua propriedade entre eles.
"Não muito tempo depois, o filho mais novo reuniu tudo o que tinha, e foi para uma região distante; e lá desperdiçou os seus bens vivendo irresponsavelmente.
Lucas 15:11-13

Essa narrativa traz os temas da perda e da redenção, e claro arrependimento. Mas quero focar na intenção do coração, o filho estava tão seduzido pelas riquezas que nada mais importava, só importava a aquisição das riquezas, de tal forma que não podia mais esperar. Fica claro que já havia sido embriagado pelas possibilidades que seu tesouro abriria.

Nos textos abaixo, Jesus fala dessa relação doentia com o Dinheiro.
"Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam.
Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam.
Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.
"Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.
Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!
"Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro
(Mamon)".
Mateus 6:19-24


"Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mamon)".
Lucas 16:13


Jesus faz uma relação direta entre tesouro e coração. Uma relação indissolúvel, portanto aquilo que valorizamos é disso que nosso coração está cheio. Isso não quer só dizer dinheiro e riquezas, como também objetivos e planos, e inclusive pessoas, tudo que de alguma forma damos proeminência em nossa vida.


"Quando a gente gosta é claro que a gente cuida"! Como disse Caetano Veloso, mas o tema, na verdade é, aquilo que amamos, de fato, é o melhor para nossa vida? Essa é a pergunta a responder.

Se há uma relação direta entre tesouro e coração, o mesmo não pode ser dito de Deus e o Dinheiro (Mamon), fica evidente nas palavras de Jesus no mínimo uma incongruência entre Deus e o Dinheiro. Não estou falando de voto de pobreza, nem de andar todo rasgado, muito menos se tornar franciscano, estamos falando daquilo QUE DE ALGUMA FORMA DAMOS PROEMINÊNCIA EM NOSSA VIDA.

Mamon originalmente não era uma divindade, como descrito na Wikipédia: é um termo, derivado da Bíblia, usado para descrever riqueza material ou cobiça, na maioria das vezes, mas nem sempre, personificado como uma divindade. A própria palavra é uma transliteração da palavra hebraica "Mamon" (מָמוֹן), que significa literalmente "dinheiro".

No entanto acabou por ser o cerne da vida humana, acima de família, saúde, e claro de Deus. E aí está o problema, deixamos tudo pela busca do dinheiro, numa epopeia louca em busca de uma vida melhor e um suposto bem estar. Estamos sempre voltados para um futuro que almejamos, mas que acaba sendo tão limitado. Limitado por que acabamos sempre fazendo planos que excluem a eternidade, que é o fim maior de nossas vidas como cristãos.
Nos envolvemos no sistema que rege nosso planeta, e não nos damos conta que nos tornamos como robôs, numa grande linha de montagem. Vivemos num mundo capitalista, onde o que importa é o capital, ou seja, o dinheiro. Tudo deve girar em torno dele, todo o resto é secundário, como disse uma ministra da economia anos atrás “ O povo é um detalhe”.

Quando o dinheiro se torna o centro de nossa sociedade, ele se torna uma Divindade, e nossa sociedade que se acha tão dissociada da religião se torna a mais religiosa de todas, sem nem mesmo notar.




“o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.”
Afirma Giorgio Agamben, citando Walter Benjamin, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012.

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Foi definido pelo Times e por Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo.

Artigos do filósofo:

Se tomarmos essa afirmação como uma possível verdade, de que o capitalismo é uma religião, até que ponto estamos envoltos nessa religião? Não estou defendendo seu ponto de vista, apenas fazendo uma conjectura, se isso for verdadeiro estaremos servindo a 2 senhores.

Na verdade o grande tesouro ignorado pelos seres humanos é...

"Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.
Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.
Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus.
Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más.
Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas.
Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se veja claramente que as suas obras são realizadas por intermédio de Deus".
João 3:16-21


Nesse segundo artigo ele diz: Sem fé ou confiança, não é possível o futuro. Só há futuro se pudermos esperar ou crer em alguma coisa. Nosso futuro é a vida eterna, dada a quem crê no filho de Deus.

sábado, 29 de novembro de 2014

SANTIDADE, COISA DE OUTRO MUNDO?

O tema é no mínimo desconfortável. Quem nunca esteve em posição de se auto avaliar, e temer a essa análise do

ponto de vista da santidade, que imaginamos, que Deus espera de nós?

Esse desconforto e sofrimento se devem muitas vezes, a nossa construção equivocada sobre o que é santidade, qual a

necessidade dela em nossas vidas e o que julgamos ser um caminho de santidade para Deus.

Ficamos muitas vezes buscando um sinal, como de celular fora de área, tentando localizá-la no exterior de nós, por

meio de circunstâncias, de pessoas e tudo mais que testifique em nós que estamos no caminho da tal santificação.

Ao me lembrar dos primeiros anos pós conversão, que ocorreu em 2003, vem um sentimento de inadequação  por

ouvir sobre santidade e mesmo com muita sede de Deus, e diagnosticar que não era pra mim. Ah se a gente soubesse

quantas pessoas afastamos da igreja por conta dos elevadíssimos padrões que nossos falsos discursos, impõem a

quem se converte.

Ao mesmo tempo, quando me lembro, vem uma alegria de saber hoje tudo que sei e melhor ainda, de conviver com o

que ainda não sei, da perspectiva de que tudo tem seu tempo, graças a Deus.

O pecado que habita em nós

A morte de Nadabe e Abiú (Levítico 10:1-2)

Naquele mesmo dia, Nadabe e Abiú, filhos de Arão, pegaram cada um seu incensário, puseram brasas e incenso

neles e ofereceram fogo "estranho" ao Eterno - algo que o eterno não havia ordenado. Por isso, saiu fogo da presença

 do Eterno e os consumiu - eles morreram na presença dele.³

         Aquilo que entendemos por santidade, é muitas vezes nossa morte. Quantos de nós já não nós deixamos levar

por esse fogo estranho, para fins de manipulação do poder de Deus?  Ainda em Levítico, no capítulo 9, podemos ver

mais uma vez Deus dando as instruções para aproximação dEle com a humanidade decaída, cada detalhe foi passado

por Moisés a Arão e seus filhos e assim foi tudo preparado. Após os ritos de sacrifício, Deus se agradou de tudo e fez

descer fogo Santo e todos ficaram maravilhados.

      Esse relato de Levítico, parece algo tão distante da nossa realidade né? Mas não é não!

      Uma vida de santidade requer sim sacrifício, relacionamento com Deus! Mas como isso leva tempo, muitas vezes

procuramos um foguinho estranho de atalho.  A nossa imaturidade, assim como a de Nadabe e Abiú, nos torna

escravos dos sinais do poder de Deus de pessoas que tem PhD em fabricar falsa espiritualidade.

Caio Fábio em seu livro "o Caminho do Fogo" é categórico:

        Afinal o que estamos procurando? Que desejamos? Uma geração ardendo diante de Deus ou ver gente

incendiada por fogos artificiais de uma pirotecnia da qual Deus não faz parte? Isso é coisa séria porque este fogo

que provém de Deus e queimou Nadabe e Abiú é como um vômito divino. É Deus, nauseando quem diz: "Chega! Não

aguento mais esse negócio!"¹

      O fogo estranho faz um caminho sutil pelo coração do homem, que passa pela nossa presunção em sermos algo

que não somos, passa também pela pressa de chegarmos a algum lugar desejado e passa pelo engano. - Parece de

Deus, então como eu tenho pressa, que seja!

    A diferença entre a chama divina e o fogo estranho é a de que a  chama que vem de Deus está sob controle dEle,

ninguém  pode decretar, prever, planejar, fazer acontecer, o resultado é a manifestação da Glória de Deus.¹

Pecado, Culpa e Perdão

Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e,

em troca, darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agir segundo os meus decretos

e a obedecer fielmente às minhas leis. (

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; (

      O primeiro passo pra uma reconciliação com o Pai é o descortinar do pecado, isso me faz lembrar o primeiro

passo pra um viciado se tratar.  Ele faz todos os caminhos tortuosos pra sua degradação, pra destruição do seu

caráter, e vai fundo no poço e desce ainda mais, mas quando ele "de fato" busca ajuda, a primeira ação é afirmar até

que entenda que tem um vício.  Pior é que o tratamento não cura o vício, o tratamento é curar o olhar do dependente,

fazendo-o entender o "espinho na carne" que terá de conviver.

      Então não é do pecado que estamos falando? Sim, o vício é um pecado e o pecado é um vício! 

      Eu creio que todo aquele que teve um encontro de fato com Cristo, não tem paz no pecado, porém, o pecado

agrega diversos sentidos embutidos no ato de pecar, que pode nos cauterizar. Como por exemplo, nos afastar de

qualquer pessoa que possa nos confrontar, nos tornar cínicos, nos dar sentido de autosuficiência, o sentido de

autorealização, entre outros.

      Vale a pena reforçar, o que pra nós cristãos, é pecado, pois temos a tendência de tratar sempre a partir dos

prismas da sexualidade e do sexo. O pecado em sua essência é tudo aquilo que se interpõe entre nós, indivíduos e

Deus.  Em suma, são os nossos ídolos sonhados, conquistados e perdidos.

       Gastamos uma vida inteira com eles, parecemos ratos naquela "gaiola de rodinha"' engordando, emagrecendo,

experimentando, sendo experimentados e nunca chegamos ao alvo, quando os temos.  Perdemos completamente o

foco do que realmente precisamos para viver e assim, nos perdemos em nada com coisa alguma.

     

Triste sensação de: Que vida é essa? Tem algo fora de eixo? Quando vai chegar o prometido ou a restituição

do que se perdeu? Como diz uma certa música.

     O Pr. Ed Rene Kivitz em sua pregação de nome, "A soberania de Deus e a contingência do mundo", fala sobre

isso no trecho abaixo:

A tradição de intérpretes e historiadores bíblicos considera a possibilidade de que o livro do Eclesiastes tenha

sido escrito por Salomão, já em sua velhice. Na juventude, escreve o Cântico dos Cânticos, para exaltar o

amor romântico e o prazer conjugal. Na meia idade, ocupado em empreender e fazer a vida funcionar, escreve

os Provérbios, com sua ênfase em sabedoria pragmática. Mas no fim da vida, expressa toda a experiência de

um homem que se aplicou a buscar “saber o que valesse a pena, debaixo do céu, nos poucos dias da vida

humana” [2.3] e simplifica sua conclusão célebre expressão do Eclesiastes: Vaidade de vaidades, tudo é

vaidade!, ou então: Que grande inutilidade! Que grande inutilidade!, diz o Mestre. Nada faz sentido! Tudo sem

sentido! Sem sentido!, diz o mestre. Nada faz sentido! Nada faz sentido! [1.2; 12.8].²

     Para o pecado, reconhecimento que gera culpa.  Para a culpa, o perdão de Deus e o seu próprio. A mensagem da

Cruz deve ser efetiva na vida do crente e não apenas, um conto de fadas encantado que não se realiza em nós.

Aceitamos essas mentiras no coração e nos afastamos cada vez mais. Crer na Sua palavra é fundamental,

nisso vemos o poder de Deus e sua Graça.

    Somos os responsáveis diretos pelo nosso afastamento e reaproximação de Deus, precisamos nos conscientizar de

que embora diversas questões no empurrem para esse afastamento, é uma decisão tomada internamente e

individualmente.

 " Só quando a paz da graça nos embala, nos Nina e nos faz cafuné é que a alma pode começar a ser curada".¹

Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem

obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de

Deus. Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz

perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos

decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos

concedeu. (

Resumo final

     Quando terminei esse estudo, me veio essa música na cabeça e achei muito oportuno compartilhar com

vocês.

Isaías 53 - Diante do Trono

Não havia nele beleza ou formosura que nos agradasse

Era rejeitado o mais humilhado entre os homens

Homem de dores, sabe o que é padecer

Desprezado, dele não fizemos caso

Ele levou sobre si as nossas dores

Ele levou sobre si as nossas transgressões

E nós olhavámos para Ele, pensávamos que eram seus

Próprios pecados que O levavam ali

Mas foi por mim e por ti

Ele foi transpassado, moído pelas nossas iniqüidades

Oprimido e humilhado, não abriu a boca como cordeiro

Seu castigo nos traz paz, suas chagas a cura

Por suas pisaduras fomos sarados

Porque Ele levou sobre si as nossas dores

Ele levou sobre si as nossas transgressões

E nós olhavámos para Ele, pensávamos que eram seus

Próprios pecados que O levavam ali

Mas foi por mim e por ti

Quando derramou sua alma na morte

Fez oferta pelo pecado e Se alegrou

Porque Ele nos viu, somos fruto do Seu penoso trabalho

Somos Sua porção, Sua satisfação

Ele levou sobre si as nossas dores

Ele levou sobre si as nossas transgressões

E nós olhavámos para Ele, pensávamos que eram seus

Próprios pecados que O levavam ali

Mas foi por mim e por ti

Jesus

Link:  http://www.vagalume.com.br/diante-do-trono/isaias-53.html#ixzz3JqTyHRWk

Referencias:

¹. Caio Fábio, O Caminho do Fogo, pág. 26, 29, 63.

². Ed René, site: http://edrenekivitz.com/blog/2011/03/soberania-de-deus-contingencia-mundo/, trecho.

³. Bíblia online,  NVI.

domingo, 9 de novembro de 2014

Falta de resistência, entrega ao pecado e banalização do sagrado. Será que o evangelho é eficaz?

As relações estabelecidas pelos novos sujeitos pós-modernos, (A grande troca de bens imateriais – informação e serviços – além da imposição da mentalidade relativista são as principais características do período que vivemos atualmente, o pós-modernismo. Essa fase está diretamente ligada à globalização, já que o consumismo, utilizando-se dos meios de comunicação e da indústria da cultura, pretende inserir todas as culturas em um único mecanismo.) assim como eles mesmos, são rápidas e passageiras. Não existe mais a perspectiva de durabilidade e permanência, seja em nível familiar, amoroso, conjugal ou profissional. Assim também acontece como o relacionamento com Deus, buscado apenas para satisfazer necessidades imediatas e sensações seduzidas. Algumas novas propostas religiosas e mesmo as que se auto intitulam “igrejas” padecem dessa característica. Trata-se do reflexo de uma cultura apenas de sensações e direitos, e não de deveres e responsabilidades. Uma cultura light, onde a felicidade é alcançada quando se realizam todos os desejos, mas que não está ao alcance de todos, e sim daqueles que possuem os meios para alcançá-la, não importando quais sejam. Só o que é importante são as conquistas individuais. O todo não importa se o benefício não puder ser visto de forma rápida, precisa e imediata pelo indivíduo. A pós-modernidade é, pois uma crise generalizada com matizes os mais diversos. Caracteriza-se pela prevalência do pensamento fraco e por uma virada epistemológica devida ao desencanto da razão, que não mais consegue dizer o que é a realidade e nem mesmo oferecer fundamentos e princípios claros e indiscutíveis. Prevalece à contingência, o provisório, a descontinuidade. Surge uma nova sensibilidade que prefere o particular, a dispersão, a especialização e a fragmentação. Do ponto de vista psicológico, a pós-modernidade é caracterizada por uma perda de sentido, vivida como vazio existencial, que muitas vezes causa evasão para as drogas, para o consumismo e o hedonismo.( Hedonismo consiste em uma doutrina moral em que a busca pelo prazer é o único propósito da vida.)  Dentro deste panorama, a crise religiosa é inegável, mas ainda persiste a busca pelo transcendente e por princípios que conduzam a vida do ser humano. Ao mesmo tempo, essa busca convive com o desejo de satisfação pessoal, de forma imediata, para a solução de problemas, e nem sempre para uma verdadeira experiência e adesão aos fundamentos religiosos e pertença a uma instituição eclesiástica. A necessidade de ser acolhido e aceito leva o ser humano pós-moderno a buscar uma religião que atinja seus sentidos. Se na modernidade parecia que tudo apontava para um mundo sem Deus e sem perspectiva de religiosidade, na pós-modernidade ocorre uma volta ao transcendente. Há uma ânsia cada vez maior de experiências e de práticas religiosas. Uma busca incessante pelo Sagrado, sem que com isso se tenha que escutar autoridades ou teólogos. Trata-se da busca por algo que atinja o coração humano e que o faça sentir-se querido e amado. É nesse contexto que nascem e difundem-se novas experiências religiosas que geram movimentos, associações, grupos e diversas organizações. Nestes ambientes religiosos, pessoas irremissivelmente (irrecuperáveis) afastadas das instituições históricas sentem-se livres e abertas à experiência do Sagrado em meio à profunda fraternidade existente – algo que não é encontrado com facilidade nos demais espaços sociais. É possível notar, entre elas, a necessidade de se tornar, de alguma maneira, participante, tanto passiva quanto ativamente, reencontrando assim o fio do sentido da vida. O Deus buscado e encontrado por essa chave de compreensão se revela através da experiência e, sobretudo, através do sentimento de sua presença, de sua energia que circunda, plenifica e pacifica. É o divino que anima o movimento da vida através de ciclos da natureza. A natureza, aliás, faz parte do divino. Todo real  pode ser unificado em Deus. É através do sentimento que é possível entrar em comunhão com Ele – a razão não desempenha papel de muita importância no processo. Assim, surgem diversas denominações e espiritualidades para atender a tais desejos e necessidades que movem todos os seres humanos que experimentam uma constante busca. SERÁ O EVANGELHO EFICAZ? RESPOSTA Nos Profetas – devoção sincera. Isaías 1 Em Paulo – transformação, metanóia. Romanos 12 Em Jesus – querer, esforço, entrega. Lucas 9: 23
Baseado na obra: “O mistério e o mundo” de Maria Clara Bingemer ed. Rocco

domingo, 2 de novembro de 2014

OS EVANGÉLICOS: EM CASA, NA COMUNIDADE FÉ E NA VIDA PÚBLICA


Quem são e o que pensam os chamados evangélicos, estes fiéis que no Brasil se multiplicam a cada dia e que, em sua maioria, saem das fileiras do catolicismo e geralmente mediante um fenômeno de conversão?
O Rio de Janeiro é ainda hoje o estado mais católico do país. Uma pesquisa anterior projetada e coordenada por Rubem Cesar Fernandes, realizada em 1992 pelo ISER (Instituto de Estudos da Religião) na área metropolitana do Rio de Janeiro, constatou a existência de 4000 instituições evangélicas nesta área. Com o objetivo de avaliar o ritmo deste crescimento, recorreu-se a registros publicados em diário oficial nos três anos anteriores. Os resultados destes levantamentos foram surpreendentes: mais de cinco novas igrejas foram fundadas e registradas por semana naqueles anos. Ou seja, mais do que uma igreja por dia útil. E, entre as 710 igrejas fundadas, durante os mesmos três anos, no Rio de Janeiro e sua periferia, nada menos do que 91,26% são pentecostais e 80% delas se localizam nas áreas mais carentes.
Em outras palavras, na região metropolitana do Rio de Janeiro, quanto mais pobre é a área, menos católica ela costuma ser e mais pentecostal ela se torna. E há ainda outro resultado da mesma pesquisa que chama atenção: entre as 52 denominações evangélicas cadastradas, nada menos do que 30 foram criadas no Rio de Janeiro.
Porque o interesse pelos evangélicos?
Há 20 anos o objeto desta pesquisa seria assunto para uns poucos especialistas. Tipicamente o tema era visitado por cientistas sociais de extração evangélica que traziam para o ambiente universitário suas experiências e preocupações de origem. Hoje, evidentemente, tornou-se matéria de interesse geral. Esta mudança pode ser atribuída a, ao menos cinco fatores:
  • O crescimento notável da população evangélica na América Latina. Considerando-se o crescimento quantitativo tornou-se uma inequívoca medida de sucesso nos tempos modernos, é natural que os evangélicos sejam hoje percebidos como um intrigante fenômeno de sucesso cultural;
  • Sua visibilidade. Os evangélicos não se escondem. Preferem situar os templos em locais de destaque, falam de Cristo com desenvoltura a próximos e a estranhos, evangelizam nas ruas e investem poderosamente na mídia. A visibilidade, para eles, tem um sentido religioso, como expressão do testemunho de Boas Novas recebidas.
  • Seu impacto transformador no campo religioso. Levam mensagem de conversão que implica rupturas marcantes no conteúdo da fé e no comportamento. “É preciso nascer de novo”, dizem em suas pregações. As mudanças são tão evidentes que provocam polêmicas e, em certos casos, até mesmo escândalo.
  • Sua presença na vida pública, para além da religião. Ultrapassaram a fase do reconhecimento em grupos fechados e apresentaram-se cada vez mais como portadores de uma alternativa de fé para o país. Repercutem nos hábitos culturais e na politica.
  • Sua penetração nas classes pobres e nos bairros perigosos. São mais bem-sucedidos justamente nas regiões da sociedade que parecem quase inacessíveis às elites seculares formadoras e opinião.
A palavra “ética” vem do grego ethos e se refere aos costumes ou práticas que são aprovados por uma cultura. A ética é a ciência da moral ou dos valores e tem a ver com as normas sob as quais o indivíduo e a sociedade vive. Essas normas podem variar grandemente de uma cultura para outra e dependem da fonte de autoridade que lhes serve de fundamento.

A ética cristã tem elementos distintivos em relação a outros sistemas.
O teólogo Emil Brunner declarou que a ética cristã é a ciência da conduta humana que se determina pela conduta divina. Os fundamentos da ética cristã encontram-se nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, entendidas como a revelação especial de Deus aos seres humanos.
A ética é importante para a vida diária do cristão. A cada momento precisamos tomar decisões que afetam a outros e a nós mesmos. A ética cristã ajuda as pessoas a encarar seus valores e deveres de uma perspectiva correta, a perspectiva de Deus. Ela mostra ao ser humano o quanto está distante dos alvos de Deus para a sua vida, mas o ajuda a progredir em direção esse ideal.


Se fosse possível declarar em uma só sentença a totalidade do dever social e moral do ser humano, poderíamos fazê-lo com as palavras de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Mt. 22, 37 e 39)

1. A ÉTICA DO ANTIGO TESTAMENTO

1.1  O caráter ético de Deus
A religião dos judeus tem sido descrita como “monoteísmo ético”. O Velho Testamento fala da existência de um único DEUS, o criador e Senhor de todas as coisas.
Esse Deus é pessoal e tem um caráter positivo, não negativo ou neutro. Esse caráter se revela em seus atributos morais. Deus é Santo (Lv. 11, 45; Sl. 99, 9), justo (Sl. 11, 7; 145, 17), verdadeiro (Sl. 119, 160; Is. 45, 19), misericordioso (Sl. 103, 8; Is. 55, 7), fiel (Dt. 7, 9; Sl. 33, 4).

1.2  A natureza moral do homem
A Escritura afirma que Deus criou o ser humano à sua semelhança (Gn 1, 26-27). Isso significa que o homem partilha, ainda que de modo limitado, do caráter moral de seu Criador. Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina no ser humano, não a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das suas criaturas: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).

1.3  A Lei de Deus
A lei expressa o desejo que Deus tem de que as suas criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis no Antigo Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam disciplinar o relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca valores como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade, sempre visando o bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.

1.4 Os Dez MandamentosA grande síntese da moralidade bíblica está expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21). As chamadas “duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e para com o seu próximo. O Reformador João Calvino falava nos três usos da Lei: judicial, civil e santificador. Todas as confissões de fé reformadas dão grande destaque à exposição dos Dez Mandamentos.
1.5 A contribuição dos profetas
Alguns dos preceitos éticos mais nobres do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos Profetas, especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na ética individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus e oferecer-lhe sacrifícios, sem, todavia ter um relacionamento de integridade com o semelhante. Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20; 10 1-2; 33, 15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6, 6-8.

2. A ÉTICA DO NOVO TESTAMENTO

1. A ética do Novo Testamento não contrasta com a do Antigo, mas nele se fundamenta. Jesus e os Apóstolos desenvolvem e aprofundam princípios e temas que já estavam presentes nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases novas.

2. A ética de Jesus: a ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o conceito do “reino de Deus”.
Esse reino expressa uma nova realidade em que a vontade de Deus é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não apenas ensinou os valores do reino, mas os exemplificou com a vida e o seu exemplo.

3. O Sermão da Montanha: uma das melhores sínteses da ética de Jesus está contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus discípulos (os Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade, mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor. A moralidade deve ser tanto externa como interna (sentimentos, intenções): Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc 7, 21-23.

4. A vontade de Deus: Jesus acentua que a vontade ou o propósito de Deus é o valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O maior pecado do ser humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12, 13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos dois grandes mandamentos que sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro princípio importante é a famosa “regra de ouro”: Mt 7, 12.

5. A ética de Paulo: Paulo baseia toda a sua ética na realidade da redenção em Cristo. Sua expressão característica é “em Cristo” (II Co 5, 17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). Somente por estar em Cristo e viver em Cristo, profundamente unido a Ele pela fé, o cristão pode agora viver uma nova vida, dinamizado pelo Espírito de Cristo. Todavia, o cristão não alcançou ainda a plenitude, que virá com a consumação de todas as coisas. Ele vive entre dois tempos: o “já” e o “ainda não”.

6. Tipicamente em suas cartas, depois de expor a obra redentora de Deus por meio de Cristo, Paulo apresenta uma série de implicações dessa redenção para a vida diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef 4, 1)

7. Entre os motivos que devem impulsionar as pessoas em sua conduta está a imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; Fp 2, 5). Outro motivo fundamental é o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-13; 16, 14; Gl 5, 6). O viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-23).

8. Na sua argumentação ética, Paulo dá ênfase ao bem-estar da comunidade, o corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4, 25; Gl 3, 28). Ao mesmo tempo, ele valoriza o indivíduo, o irmão por quem Cristo morreu (Rm 14, 15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16)

9. Acima de tudo, o crente deve viver para Deus, de modo digno dele, para o seu inteiro agrado: Rm 14, 8; II Co 5, 15; Fp 1, 27; Cl 1, 10; I Ts 2, 12; Tt 2, 12.